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Geopolítica Brasileira Precisa de Nova Rota: Por Que o Mar do Caribe, e Não Só a Amazônia, Define o Norte da América do Sul e a Influência dos EUA

A geopolítica tradicional brasileira, fortemente marcada por pensadores como Golbery do Couto e Silva, frequentemente regionaliza a porção norte da América do Sul sob o guarda-chuva da ‘Área Amazônica’. Contudo, essa perspectiva é questionada por especialistas, que argumentam que países com litoral caribenho, como Colômbia e Venezuela, estão muito mais sob influência atlântica do que amazônica, uma nuance crucial para a compreensão das dinâmicas regionais e a projeção continental do Brasil.

O Mar do Caribe como ‘Mare Nostrum’ Americano

A tese do Poder Marítimo, de Alfred Mahan, foi fundamental para a geopolítica estadunidense moldar sua visão sobre o Mar das Antilhas. Os Estados Unidos conceberam uma espécie de ‘Mare Nostrum’ no Caribe, similar ao Mediterrâneo para o Império Romano, transformando a região em uma área de alta presença e função estratégica para a proteção da potência. Essa abordagem marítima, muitas vezes subestimada pela geopolítica brasileira focada em terra, é essencial para entender as relações de poder no norte do continente.

Demografia e Infraestrutura Desmentem a Tese Amazônica

A realidade demográfica e de infraestrutura de nações como Colômbia e Venezuela desafia a prevalência da ‘influência’ amazônica. A vasta maioria da população desses países se concentra no litoral e nas bacias de rios que deságuam no Mar das Antilhas, como o Magdalena e o Orinoco. Assentamentos humanos nas florestas equatoriais amazônicas são escassos, com ocupações territoriais além dos Andes e do litoral caribenho geralmente se fixando em zonas de savanas. A conectividade também reforça essa tese: Colômbia e Venezuela possuem pouquíssimas estradas pavimentadas ou ferrovias em suas porções amazônicas, com a infraestrutura terrestre focada em ligações com o Brasil ou, no caso da Colômbia, com o Equador, e uma densa rede de comunicação e comércio com as nações caribenhas.

A Inegável Hegemonia Econômica e Militar dos EUA

A presença econômica e militar dos Estados Unidos no Caribe sul-americano é intensa e notória. O próprio geopolitólogo brasileiro Mário Travassos já observava o avanço norte-americano a partir do Mar das Antilhas em sua obra ‘Projeção Continental do Brasil’. Atualmente, os EUA são o maior parceiro comercial da Colômbia, respondendo por mais de 25% de suas exportações e importações, um sucesso mantido e intensificado pelo Acordo Bilateral de Livre-Comércio de 2012. No âmbito militar, acordos como o de 2009 com a Colômbia e o ‘Plan Colombia’, justificados pelo combate ao narcotráfico, serviram para intensificar a influência bélica norte-americana. Além disso, a presença se manifesta por instalações militares no Panamá (ativas até 2000) e agrupamentos aeronáuticos em aeroportos de Curaçao e Aruba, ilhas holandesas a poucas milhas da América do Sul, que são estrategicamente usadas para persuadir e pressionar nações como a Venezuela.

Um Novo Olhar para a Projeção Continental Brasileira

Diante desse cenário, a geopolítica tradicional brasileira, por vezes excessivamente ligada ao pensamento continental de Mackinder, moderadamente ignorou visões cruciais relacionadas ao Poder Marítimo. É imperativo que se realize uma nova regionalização que reconheça a superioridade da ‘influência’ atlântica sobre a amazônica na face norte da América do Sul. Essa compreensão mais apurada das peculiaridades e dos poucos vínculos dessa importante porção do continente com o restante permitiria ao Brasil traçar uma projeção continental mais efetiva, desenvolvendo estratégias de integração sul-americana mais firmes e alinhadas com a realidade geopolítica da região.

Fonte: jornal.usp.br

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