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"title": "Abraham Moles: A Fascinante Conexão entre Chronos e Kairós na Engenharia, Ciência e Filosofia do Tempo",
"subtitle": "Professor da USP José Roberto Castilho Piqueira explora a obra do polímata francês e a dualidade do tempo que molda a inovação tecnológica e as transformações sociais, desde os relógios atômicos aos sinais quânticos.",
"content_html": "<h1>Abraham Moles: A Fascinante Conexão entre Chronos e Kairós na Engenharia, Ciência e Filosofia do Tempo</h1><h2>Professor da USP José Roberto Castilho Piqueira explora a obra do polímata francês e a dualidade do tempo que molda a inovação tecnológica e as transformações sociais, desde os relógios atômicos aos sinais quânticos.</h2><p>Em um período de reflexões e planejamentos para o futuro, como o final ou início de um novo ciclo, a percepção do tempo se torna particularmente aguda. Não é apenas o fluxo ininterrupto e objetivo, mas também os momentos de mudança qualitativa que moldam nossas vidas. Essa dualidade, personificada pelos deuses gregos Chronos e Kairós, é um campo fértil para a introspecção, especialmente para aqueles que, como o professor José Roberto Castilho Piqueira da Escola Politécnica da USP, dedicam-se aos estudos de sistemas dinâmicos e às não linearidades da engenharia.</p><h3>A Dualidade do Tempo: Chronos e Kairós na Engenharia</h3><p>O tempo de Chronos é aquele que medimos e quantificamos: o tique-taque dos relógios, a precisão dos sistemas digitais, o fluxo contínuo que vai desde as observações astronômicas antigas até os modernos relógios atômicos. Na engenharia, especialmente em telecomunicações, a imersão em Chronos é profunda. O sincronismo preciso de sinais eletrônicos digitais, com suas frequências e fases controladas, mesmo em meio a ruídos e perturbações, é um testemunho da busca por uma medição objetiva e um controle rigoroso do tempo. A experiência do professor Piqueira, desde seu primeiro projeto profissional em 1977 na Telebrás, exemplifica essa dedicação ao tempo cronológico.</p><p>Contudo, Chronos não opera isoladamente. Imerso nesse fluxo quantitativo, há o tempo de Kairós – o momento oportuno, as mudanças qualitativas que emergem de rearranjos socioeconômicos-culturais e transformam o cotidiano. É a percepção de que, mesmo na rigidez da engenharia, há uma camada de transformação e inovação impulsionada por contextos mais amplos. Abraham Antoine Moles (1920-1992), em sua obra seminal "A criação científica" (1954), argumenta que esse processo de Kairós, dentro do mundo de Chronos, é uma consequência da renovação da vida através do pensamento científico, destino da sociedade industrial avançada.</p><h3>Abraham Moles: O Polímata que Desafiou Estereótipos</h3><p>A biografia de Abraham Moles é um contundente desmentido à crendice popular de que engenheiros carecem de habilidade no mundo das letras e da filosofia. Formado em engenharia de eletricidade e acústica, Moles é reconhecido como precursor dos estudos teóricos das ciências da informação e comunicação, chegando a prefaciar a obra canônica de Warren Weaver e Claude Elwood Shannon. Sua capacidade de combinar saberes aparentemente distintos era notável, evidente em sua tese de doutoramento de 1952, "A estrutura física do sinal musical e fonético", que unia engenharia e arte.</p><p>Sua jornada acadêmica o levou ao departamento de música da Universidade de Columbia e, posteriormente, de volta à França, onde, sob a orientação de Gaston Bachelard, defendeu uma segunda tese de doutoramento em Letras (Filosofia) na Sorbonne em 1954: "A criação científica". Essa trajetória multidisciplinar, que o qualificou como polímata, permitiu-lhe transitar entre eletroacústica, sociologia, psicologia social e estética, aplicando, por exemplo, as teorias de Shannon à arte em seu livro "Art and Computer" (1971), inspirado pelo grupo Oulipo.</p><h3>O Legado de Moles e os Desafios Futuros</h3><p>A atuação de Moles sempre esteve na interseção entre descobertas e evoluções tecnológicas das comunicações e as humanidades. Ele colaborou na fundação da National Academy of Street Arts (ANAR) em 1975 e deixou um rico legado institucional, incluindo a presidência da Société Française de Cybernétique e a direção do Instituto de Psicologia Social das Comunicações, conhecido como Escola de Estrasburgo. Sua visão continua a inspirar a Associação Internacional de Micro Psicologia e Psicologia Social das Comunicações, demonstrando a perenidade de suas ideias sobre a interação entre tecnologia e sociedade.</p><p>Para o professor Piqueira, a busca por aprimoramento em Chronos persiste, visando completar resultados sobre controle de fase e frequência de oscilações, minimizando ruídos e perturbações, e projetando bases de tempo para futuras redes de comunicação quânticas em larga escala. No entanto, a perspectiva de Moles sobre Kairós oferece uma bússola para navegar os desafios do mundo acadêmico atual. Resistir à numerologia de artigos e citações, aos custos de editoras mercenárias e à influência de grupos tecnológicos hegemônicos, com a ajuda do tempo qualitativo de Kairós, é um imperativo para a verdadeira inovação e liberdade intelectual. A obra de Abraham Moles, portanto, transcende o tempo, oferecendo uma lente valiosa para compreender e moldar o progresso científico e humano.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br


