O Brasil enfrenta um cenário alarmante na pesquisa e tratamento de transtornos alimentares. Uma revisão sistemática inédita, conduzida por Jônatas Oliveira, doutorando pela Faculdade de Medicina da USP, revelou que o país possui menos de dez ensaios clínicos sobre o tema nos últimos 40 anos. Essa escassez de estudos clínicos robustos levanta sérias questões sobre a base de evidências que orienta as condutas clínicas em saúde mental voltadas para essas condições complexas, impactando diretamente a qualidade do cuidado oferecido à população.
A Raiz do Problema: Falta de Formação e Pesquisa
A principal causa para essa lacuna, segundo Oliveira, reside na ausência de conteúdos formais sobre transtornos alimentares nos currículos de graduação e pós-graduação. Essa falha compromete a formação de novas gerações de profissionais e pesquisadores, dificultando o avanço do conhecimento na área e a capacidade do país de produzir suas próprias evidências. O estudo de Oliveira, que incluiu duas revisões (uma sobre o panorama nacional e outra focada em bibliometria), foi aprovado para comunicação em agosto de 2024, sob o título “Brazil has a problem: Where is the research about eating disorders in Brazil?”, reforçando a urgência de investimentos públicos, políticas de saúde específicas e a inclusão do tema na formação acadêmica.
Ensaios Clínicos Escassos: Um Panorama Nacional
A maioria dos poucos ensaios clínicos identificados concentrou-se no transtorno da compulsão alimentar (TCA), caracterizado por episódios de grande volume de comida consumidos com sensação de perda de controle. O primeiro estudo brasileiro, publicado em 2003 por Appolinário e colaboradores no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi um ensaio clínico randomizado duplo-cego que testou a sibutramina em indivíduos com compulsão alimentar, indicando redução significativa de episódios compulsivos, perda de peso e melhora de sintomas depressivos.
Em 2007, Claudino e equipe realizaram um estudo multicêntrico em quatro universidades, utilizando topiramato combinado com terapia cognitivo-comportamental (TCC), com resultados promissores na redução de peso e remissão da compulsão. No mesmo ano, Duchesne e colaboradores publicaram um estudo aberto com aplicação de TCC em grupo na UFRJ, demonstrando uma alta taxa de remissão (76%) e melhora em sintomas depressivos e insatisfação corporal entre 21 participantes.
O único ensaio clínico brasileiro envolvendo pacientes com anorexia nervosa foi realizado em 2018 por Pegado e colaboradores na USP. Este estudo não randomizado comparou o tratamento multidisciplinar padrão com a adição de sessões de TCC em grupo para adolescentes, mostrando melhora clínica em ambos os grupos, mas com maior adesão no grupo que recebeu TCC (91% contra 54%).
Mais recentemente, em 2021, Palavras e outros autores testaram a eficácia do protocolo HAPIFED, que associa TCC com manejo de peso, na Unifesp, para indivíduos com compulsão alimentar, bulimia nervosa e transtornos alimentares não especificados. O grupo HAPIFED demonstrou maior taxa de remissão dos episódios de compulsão e redução de comportamentos inadequados para controle de peso.
Por fim, em 2022, Hay e colaboradores publicaram um estudo multicêntrico comparando o HAPIFED com a TCC intensiva (CBT-E), avaliando sintomas clínicos, qualidade de vida e marcadores metabólicos. Embora ambos os grupos tenham melhorado, não houve diferença significativa nos parâmetros metabólicos, sugerindo que intervenções mais intensivas podem ser necessárias para um impacto clínico mensurável em pacientes com sobrepeso e transtornos alimentares.
A Urgência por Diretrizes e Investimentos
A pergunta central que se impõe é: em quais evidências o Brasil está baseando suas condutas clínicas em saúde mental para transtornos alimentares? Há interesses políticos, sociais ou científicos que dificultam o aumento das pesquisas ou a obtenção de recursos? A investigação de Jônatas Oliveira busca descrever esse cenário, fomentar o debate científico e, crucialmente, contribuir para a formulação de políticas públicas eficazes.
É imperativo o fortalecimento da pesquisa clínica nacional para a construção de diretrizes adaptadas à realidade brasileira e para a formação de profissionais capacitados a lidar com essas condições psiquiátricas complexas. Sem um investimento robusto em pesquisa e educação, o país continuará a operar em uma lacuna de conhecimento, comprometendo a saúde e o bem-estar de milhares de indivíduos afetados por transtornos alimentares.
Fonte: jornal.usp.br


