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O Incômodo de ‘Negros na Piscina’: Como a Arte de Paulo Nazareth e o Livro de Diane Lima Desafiam o Privilégio e a Segregação Racial no Brasil

Val, a personagem que ressoa profundamente com a realidade de muitos lares brasileiros no filme “Que Horas Ela Volta?”, vive um momento de revelação ao adentrar a piscina da casa onde trabalha. Com uma mistura de culpa e curiosidade infantil, ela experimenta o prazer, o frescor e o descanso – sensações raras em sua rotina. Esse ato, aparentemente simples, é uma transgressão silenciosa, um cruzamento de fronteiras entre “quem pode” e “quem não pode”, quebrando a lógica que separa “os da sala” e “os da cozinha”. A cena é um potente lembrete do incômodo que a expressão “Negros na piscina” provoca, revelando como um espaço de lazer pode ser, na verdade, um campo minado de significados sociais, históricos e raciais. A arte contemporânea, por meio da série fotográfica de Paulo Nazareth e do livro organizado por Diane Lima, tem explorado essa tensão, transformando a piscina em uma poderosa metáfora das hierarquias de classe, raça e poder no Brasil.

O Peso Histórico da Piscina

A ideia de piscinas como territórios segregados tem raízes históricas profundas. Em 1964, na cidade de St. Augustine, Flórida (EUA), um protesto pacífico de jovens negros em uma piscina de hotel foi recebido com violência extrema. O gerente do Monson Motor Lodge chegou a despejar ácido muriático na água na tentativa de expulsá-los, seguido por prisões arbitrárias pela polícia. Esse episódio, emblemático de um período de leis segregacionistas, demonstra como piscinas eram frequentemente palcos de conflitos, com cidades preferindo fechá-las ou até destruí-las a permitir o acesso de pessoas negras. Ataques contra crianças e jovens negros que tentavam nadar eram comuns, solidificando o imaginário contemporâneo onde a piscina transcende o lazer para se tornar um domínio carregado de significados de exclusão e pertencimento.

O Gesto Repetido: Paulo Nazareth e a Ocupação do Espaço

É nesse contexto de memória histórica e regras tácitas que a série fotográfica “Negros na piscina” (2014), de Paulo Nazareth, ganha sua força perturbadora. O artista afro-indígena se insere repetidamente em piscinas de hotéis, clubes e espaços públicos, sempre sozinho, com a água até o peito ou pescoço e uma expressão que varia entre o neutro e o levemente sério. As imagens, registradas de forma direta, sem efeitos ou enquadramentos elaborados, como fotos comuns de viagem, contrastam com a ocupação estática e quase silenciosa do artista no centro da cena. Em algumas, ele é o único na água; em outras, pessoas brancas ao redor parecem não interagir com sua presença. Se a insubmissão de Val dura apenas minutos, a repetição do gesto de Nazareth cria um diário visual, um arquivo documental onde o corpo não branco ocupa, de forma insistente, um recinto historicamente associado ao privilégio branco.

O Embate com Hockney: Luz e Sombra na Piscina

Para aprofundar a discussão sobre a piscina como campo de disputa, é instigante traçar um paralelo entre a obra de Nazareth e a icônica pintura “A Bigger Splash” (1967), de David Hockney. Em Hockney, a piscina californiana é um ícone de um estilo de vida moderno, ensolarado e hedonista, com a água azul e o respingo congelado no tempo construindo uma imagem de liberdade e anonimato. A ausência do corpo do mergulhador, submerso, reforça a ideia de uma cenografia, um mundo sem conflitos, quase publicitário. Nazareth, por outro lado, reinscreve o corpo negro nesse mesmo lócus, mas de maneira frontal e politizada. Sua presença visível, estática e insistente revela que esse espaço não é neutro; ele carrega uma história viva de exclusão, violência e segregação, contrastando o prazer capturado por Hockney com a fricção histórica e a falha do “mito californiano” quando confrontado com a experiência negra. O que em Hockney é liberdade, em Nazareth se torna embate.

O Livro Como Gesto Político: Diálogos e Fissuras

A provocação de “Negros na piscina” se expande e se aprofunda com o livro homônimo (2023), organizado por Diane Lima. Inspirado na série de Nazareth, o título já anuncia a pergunta central: “O que imaginamos quando ouvimos ‘negros na piscina’?”. A coletânea, que reúne uma multiplicidade de vozes — artistas, curadores, educadores, pesquisadores e agentes culturais —, recusa a neutralidade e expõe as fraturas históricas que atravessam a presença de pessoas negras e indígenas no sistema da arte. A curadoria é apresentada não como mera seleção de conteúdos, mas como uma prática e metodologia de enfrentamento, que abraça tensões, contradições e atritos para produzir novos saberes. Os textos não se limitam a denunciar desigualdades; eles elaboram estratégias, fabulam futuros e reivindicam complexidades, em uma recusa explícita à posição de objeto e uma afirmação contundente de autoria, agência e invenção. Embora sua heterogeneidade possa, por vezes, dispersar o leitor e o risco de ser absorvido pelas instituições como ícone de uma diversidade supostamente alcançada exista, sua contribuição é inegavelmente potente e necessária para questionar o sistema da arte brasileira a partir de dentro.

Em suma, seja na hesitação de Val em “Que Horas Ela Volta?”, na insistência fotográfica de Paulo Nazareth ou na multiplicidade de vozes críticas do livro de Diane Lima, a piscina emerge como um símbolo multifacetado das hierarquias sociais. Ela não é apenas um espaço físico de lazer, mas uma metáfora poderosa do próprio sistema da arte e da sociedade, refletindo quem tem acesso, quem é excluído, quem pode nadar e quem permanece à margem. Em diferentes contextos, esse recinto opera como um marcador de privilégio e segregação, condensando disputas em torno da circulação dos corpos, da gestão dos afetos e da produção de pertencimento. “Negros na piscina” incomoda porque desnuda desigualdades que insistem em ser naturalizadas, transformando o lazer em um espelho contundente das tensões de classe, raça e poder. E é justamente nesse incômodo que reside sua força transformadora e seu papel vital em abrir fissuras para um debate mais profundo e urgente.

Fonte: jornal.usp.br

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