Time-lapse inédito revela explosões silenciosas na atmosfera do Sol: o que isso significa para a Terra?
Missão da ESA, Proba-3, captura raras proeminências solares em detalhes nunca antes vistos, ajudando a desvendar o mistério do aquecimento coronal.
Em uma demonstração espetacular e raramente observada, a Agência Espacial Europeia (ESA) divulgou um vídeo em time-lapse que condensa cinco horas de atividade solar em apenas quatro segundos. As imagens, capturadas pela recém-operacional missão Proba-3 em setembro de 2025, mostram três grandiosas plumas de plasma sendo expelidas para o espaço, um fenômeno conhecido como proeminências solares.
O que são Proeminências Solares e por que são importantes?
Diferentemente das erupções solares clássicas, que são explosões intensas e brilhantes capazes de afetar a Terra, as proeminências são mais discretas. Elas se manifestam como gigantescos laços de plasma, um gás extremamente quente e eletricamente carregado que compõe grande parte do Sol. Embora menos potentes, essas estruturas são cruciais para a ciência solar. Elas se elevam acima da superfície visível do Sol e, quando se rompem, lançam parte desse plasma para o espaço.
“Ver tantas erupções de proeminências em um período tão curto é raro”, afirmou Andrei Zhukov, pesquisador do Observatório Real da Bélgica e investigador principal do instrumento responsável pelas imagens. “Estou muito feliz por termos conseguido capturá-las com tanta clareza durante nosso período de observação.”
Desvendando o Enigma do Aquecimento Coronal
O principal valor científico das proeminências reside em sua capacidade de ajudar os pesquisadores a entender um dos maiores mistérios da física solar: o aquecimento coronal. A coroa solar, a camada mais externa da atmosfera do Sol, atinge temperaturas de milhões de graus Celsius, muito mais quente do que a própria superfície solar. Esse paradoxo, conhecido como “problema do aquecimento coronal”, intriga os cientistas há décadas.
As imagens da Proba-3 oferecem novas pistas. Embora as proeminências brilhem intensamente, seu plasma é, na verdade, significativamente mais frio que a coroa – cerca de 10 mil graus Celsius. Esse contraste, onde o que parece superquente é relativamente “frio” em comparação com o ambiente circundante, desafia a intuição e fornece dados valiosos para modelar os processos que aquecem a coroa.
Tecnologia de Eclipse Artificial para Visão Detalhada
A capacidade de capturar esses detalhes sem precedentes foi possível graças a uma inovação tecnológica da missão Proba-3: a criação de eclipses solares artificiais no espaço. A missão é composta por duas espaçonaves gêmeas que trabalham em conjunto. Uma atua como um “ocultador”, bloqueando o disco solar brilhante, enquanto a outra carrega um coronógrafo, um instrumento óptico projetado para observar a coroa solar. Mantidas a uma distância precisa e alinhadas, elas reduzem a luz difusa que normalmente ofusca a visão da atmosfera externa, permitindo eclipses repetíveis, mais frequentes e duradouros do que os naturais.
O instrumento ASPIICS, instalado no coronógrafo, utiliza filtros especiais para isolar a luz emitida por diferentes elementos químicos na coroa, revelando estruturas que seriam invisíveis de outra forma. Os registros foram feitos com um filtro de hélio, e a ESA combinou esses dados com imagens do disco solar da NASA, proporcionando uma visão integrada da interação entre a superfície e a coroa do Sol.
Impacto Potencial na Terra e o Futuro da Exploração Solar
Embora os vídeos de proeminências solares não alterem diretamente a vida cotidiana, eles são fundamentais para ampliar nosso entendimento sobre a origem de fenômenos solares que podem impactar a Terra. A coroa solar é o berço do vento solar e de estruturas magnéticas que, quando se reorganizam de forma explosiva, podem gerar tempestades solares. Essas tempestades têm o potencial de interferir em satélites, sistemas de comunicação e redes elétricas.
A missão Proba-3, lançada em dezembro de 2024, já realizou dezenas de eclipses artificiais e tem a expectativa de produzir centenas de observações nos próximos anos. Ela coincide com um período de alta atividade solar, conhecido como máximo solar, tornando este um momento crucial para a pesquisa. Ao observar proeminências em erupção com tanta clareza, os cientistas estão um passo mais perto de conectar os eventos na superfície do Sol com o comportamento de sua atmosfera externa, avançando na resolução do enigma do aquecimento coronal e, consequentemente, aprimorando nossa capacidade de prever e mitigar os efeitos de eventos solares em nosso planeta.
Fonte: super.abril.com.br


