Plantas como malvas e hibiscos, conhecidas por suas propriedades medicinais e usos culinários desde a Antiguidade, ainda geram muita confusão botânica no Brasil. Um estudo aprofundado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, disponível na “Série Produtor Rural”, busca esclarecer essas dúvidas, garantindo que consumidores e cultivadores possam aproveitar seus benefícios de forma correta e segura.
A cartilha “Plantas medicinais: malvas e hibiscos”, desenvolvida pelos professores Isabelle de Oliveira Bonaldi e Lindolpho Capellari Júnior, da Esalq, alerta que o uso de espécies semelhantes às originais pode comprometer os resultados terapêuticos e gastronômicos esperados. A publicação visa orientar sobre a identificação e o uso adequado dessas plantas.
Desvendando a Verdadeira Malva
O nome “malva” deriva do grego malakós (mole), uma referência às suas propriedades emolientes. Contudo, a espécie original, Malva sylvestris, tem dificuldade de adaptação ao clima tropical brasileiro, florescendo apenas em regiões de temperaturas amenas, como o Sul do País e a Serra da Mantiqueira. O que a maioria dos brasileiros cultiva e consome sob o nome de “malva” é, na verdade, a malva-de-cheiro ou gerânio-cheiroso (Pelargonium graveolens).
Embora o gerânio-cheiroso também possua propriedades medicinais, os pesquisadores da Esalq sugerem que seria ideal incentivar a aclimatação da Malva sylvestris no Brasil para garantir o acesso às suas propriedades específicas. A malva verdadeira é amplamente estudada por sua importância medicinal, podendo ser utilizada como laxativo, tônico para o fígado e contra azia. Suas folhas e flores apresentam características anti-inflamatórias, sendo eficazes contra gengivites, abcessos, dores de dente, problemas urológicos, picadas de insetos, queimaduras, furúnculos e úlceras. Na culinária, pode ser consumida em sopas e, mais comumente, em saladas.
Hibisco: Mais que um Chá Azedinho
A confusão se estende também ao hibisco. A família Malvaceae, que inclui desde o algodão até o cacau, possui diversas variedades de hibiscos. No entanto, apenas uma é a fonte do famoso chá de sabor ácido e adocicado: o hibisco-do-chá (Hibiscus sabdariffa), conhecido também como azedinha. “Muitas espécies não são tóxicas, mas não apresentam o efeito esperado do hibisco-do-chá”, alertam os pesquisadores.
O ponto crucial para a identificação correta do hibisco-do-chá está no consumo dos pseudofrutos, chamados de “cálices”. Enquanto nesta espécie se aproveita essa estrutura específica, o uso de outras espécies do gênero Hibiscus se restringe a botões, flores ou folhas, que não entregam os mesmos benefícios fitoterápicos ou gastronômicos. O hibisco-do-chá pode ser completamente consumido, mas tradicionalmente, folhas, caules, cálices e sementes são os mais utilizados.
Benefícios Fitoterápicos e Gastronômicos
Os cálices do hibisco-do-chá são a base para uma diversidade de bebidas, quentes ou frias, fermentadas ou não. Além do chá, eles podem ser fermentados para produzir uma bebida com teor alcoólico suficiente para ser chamada de vinho, embora mais estudos sobre envelhecimento, padrões de qualidade e efeitos em consumidores sejam necessários.
As sementes do hibisco-do-chá também têm um papel importante, sendo um condimento amplamente usado na África Ocidental, obtido através da fermentação. Estudos na Nigéria indicam que esse condimento é uma fonte econômica de proteínas, probióticos, potássio e cálcio.
Para aqueles que desejam aprofundar seus conhecimentos e garantir o uso correto dessas plantas, a cartilha “Plantas medicinais: malvas e hibiscos” está disponível gratuitamente. A publicação oferece um guia rápido de identificação e informações detalhadas para aproveitar ao máximo os benefícios que malvas e hibiscos podem oferecer à saúde e à mesa.
Fonte: jornal.usp.br


