Ferramentas de Pedra de 2,75 Milhões de Anos no Quênia Revelam Estabilidade Tecnológica Ancestral Surpreendente
Descobertas em Namorotukunan reescrevem a história da evolução humana, indicando que hominídeos mantiveram o uso e desenvolvimento de instrumentos por 300 mil anos, mesmo diante de severas mudanças climáticas.
Vestígios arqueológicos encontrados no sítio de Namorotukunan, no noroeste do Quênia, estão redefinindo nossa compreensão sobre a capacidade tecnológica de nossos ancestrais mais remotos. Uma equipe internacional de pesquisadores descobriu mais de 1.300 artefatos de pedra que datam de 2,75 a 2,44 milhões de anos atrás, revelando uma estabilidade no desenvolvimento e uso dessas ferramentas por cerca de 300 mil anos. Essa constância tecnológica é particularmente notável por ter ocorrido durante um período de intensas mudanças climáticas, desafiando a visão de que instrumentos do Paleolítico eram desenvolvidos de forma não sistemática e usados esporadicamente.
Um Olhar Mais Atento aos Artefatos
Publicada em um artigo na Nature Communications, a pesquisa é a evidência mais antiga da tecnologia dentro da Formação Koobi Fora, uma das mais importantes para o estudo da evolução humana. Os artefatos, pertencentes à tecnologia olduvaiense – a indústria lítica mais remota conhecida –, demonstram uma escolha intencional e habilidade técnica avançada. Os hominídeos da época, ainda incertos, mostravam preferência por matérias-primas de granulação fina, como a calcedônia para lâminas afiadas, mesmo com outras rochas disponíveis. O padrão de lascamento e os ângulos de golpeamento também indicam um domínio técnico considerável, sugerindo uma compreensão aguçada das propriedades das rochas. Segundo Dan Palcu, geocientista e pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, que integrou a equipe após seis anos de escavações, “Mais de 30 pessoas estão envolvidas e participaram dos esforços para tentar resolver esse enigma que foi por muito tempo o sítio de Namorotukunan”.
Repensando a Linhagem Humana
As descobertas de Namorotukunan quebram paradigmas bem estabelecidos na paleoantropologia. Anteriormente, acreditava-se que a confecção intencional de ferramentas de pedra e sua evolução tecnológica estariam ligadas ao surgimento do Homo habilis (2,4 milhões de anos atrás) e do Homo erectus (1,8 milhões de anos atrás). No entanto, os artefatos quenianos são significativamente mais antigos. “A nossa pesquisa quebra paradigmas já bem estabelecidos”, afirma Palcu. Ele explica que a associação entre o uso constante de ferramentas e o aumento do cérebro em hominídeos como o Homo erectus era um consenso. Os novos dados, contudo, sugerem que “Seres muito diferentes, bem peludos e baixinhos, com um cérebro de um terço do volume do Homo erectus, provavelmente estavam usando essas ferramentas e passando o conhecimento de uma geração para outra”. Marcas de abate em ossos de animais encontrados no local reforçam o papel dessas ferramentas na busca por alimentos.
A Influência da Crise Climática
A análise do contexto geológico de Namorotukunan, realizada através de métodos como a análise de cinzas vulcânicas e variações magnéticas, permitiu aos pesquisadores reconstruir o ambiente em que esses hominídeos viviam. Entre o final do Plioceno e o início do Pleistoceno, a Bacia de Turkana transformou-se de uma planície úmida e fértil em uma região árida e instável. Palcu destaca que a constância tecnológica é ainda mais impressionante quando se considera essa adversidade. “A gente vê que o momento em que se encontra grande volume de ferramentas é imediatamente quando começa a ter uma crise climática”, observa. Essa pressão ambiental pode ter forçado os hominídeos a improvisar e aprimorar suas habilidades para sobreviver. “De uma certa forma, isso significa que, se esse é o início do uso constante da tecnologia, a nossa humanidade é a ‘criação’ de uma crise climática”, conclui o pesquisador, oferecendo uma reflexão sobre a resiliência humana diante de desafios ambientais.
Quem Eram os Antigos Artesãos?
A identidade exata dos hominídeos responsáveis por esses artefatos permanece um enigma, situando-se na “zona cinzenta” da pré-história, onde registros fósseis são escassos e fragmentados. As hipóteses variam entre um Homo primitivo ou o Australopithecus. Dan Palcu especula sobre o A. afarensis, lamentando o que ele percebe como um “viés antropocêntrico” na comunidade acadêmica. “Existe um ‘preconceito’ acadêmico que reluta em aceitar que a tecnologia possa ter surgido fora da nossa linhagem direta”, afirma. No entanto, a expectativa é que essa dúvida seja resolvida em breve. Em 2025, a equipe encontrou a parte inferior de um crânio bem preservado. Em colaboração com o Instituto Max Planck, na Alemanha, os pesquisadores agora trabalham para determinar a espécie exata, prometendo finalmente “revelar quem eram os verdadeiros artesãos dessas ferramentas no leste de Turkana”. Todos os mais de 1.300 artefatos escavados serão destinados ao Museu Nacional do Quênia, e o trabalho só foi possível com a valiosa ajuda da comunidade tradicional Daasanach, em Ileret, que guiou os pesquisadores pelo sítio arqueológico.
Fonte: jornal.usp.br


