O Dilema Climático na Saúde Respiratória
As mudanças climáticas intensificam doenças respiratórias como asma e DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), criando um ciclo vicioso preocupante. O aumento de partículas poluentes no ar, temperaturas extremas, fumaça de incêndios e pólen alergênico, conforme aponta um estudo da Agência Europeia do Ambiente, está diretamente ligado a um terço das mortes por doenças respiratórias crônicas na Europa. Em escala global, centenas de milhões de adultos sofrem com essas condições, e a resposta do sistema de saúde a essa demanda gera um impacto ambiental significativo.
A organização Health Care Without Harm estima que o setor da saúde seja responsável por cerca de 5% das emissões globais de gases de efeito estufa. Sem ações concretas, essa projeção pode atingir seis gigatoneladas anuais até 2050, o equivalente a mais de um bilhão de carros em circulação. Hospitais, especialmente unidades de terapia intensiva, são grandes consumidores de energia e materiais, contribuindo para essa pegada.
Diagnóstico Precoce: Uma Medida Climática Essencial
Especialistas em doenças respiratórias defendem que o controle precoce das doenças crônicas não só beneficia os pacientes, mas também é crucial para a redução da pegada climática do setor. Philippe Tieghem, da associação francesa Sante Respiratoire, ressalta que um diagnóstico mais rápido é uma medida climática e clínica simultaneamente. “Se detetarmos mais cedo, controlamos mais cedo: é bom para os doentes, é bom para o carbono e é bom também do ponto de vista económico”, afirma.
Inaladores: Um Marco na Descarbonização
Os inaladores, essenciais no tratamento de asma e DPOC, são um exemplo emblemático desse desafio. Os dispositivos mais comuns utilizam propelentes à base de hidrofluorocarbonetos (HFCs), gases fluorados com alto potencial de aquecimento global. Estima-se que inaladores pressurizados emitam anualmente entre 4 a 5 milhões de toneladas de CO2 equivalente na Europa e 16 a 17 milhões globalmente, representando cerca de 3% da pegada de carbono do NHS (serviço nacional de saúde do Reino Unido).
Diante desse cenário, fabricantes e serviços de saúde estão priorizando a descarbonização desses dispositivos. A AstraZeneca já lançou um inalador reformulado para DPOC no Reino Unido e na União Europeia, que substitui o antigo HFA-134a por um novo gás, o HFO-1234ze(E). Essa mudança reduz o impacto de aquecimento do inalador em impressionantes 99,9%, uma diminuição de mil vezes no potencial de aquecimento global.
Inovação e Regulação para um Futuro Sustentável
A AstraZeneca também se comprometeu a reduzir suas emissões em 98% até 2026, focando em emissões de âmbito 3, que incluem fornecedores e o uso dos produtos. Pablo Panella, vice-presidente sênior para doenças respiratórias da AstraZeneca, destaca a importância de um “doente verde” – aquele cuja doença está controlada, evitando agudizações e internações de alto impacto carbônico. Para ele, a tecnologia é apenas uma parte da equação; a outra é a regulação.
Outras grandes farmacêuticas, como Pfizer e Johnson & Johnson, também estabeleceram metas ambiciosas para atingir a neutralidade carbônica. A indústria apela por um ecossistema regulatório que apoie a inovação e facilite a chegada de opções de baixo carbono aos pacientes. “As regras precisam de ser acolhedoras e facilitadoras. Por vezes, quanto mais complexa e pesada for a regulação, mais pode significar que, mesmo desenvolvendo a tecnologia, ela demora muito tempo a chegar efetivamente aos doentes”, adverte Panella.
Fonte: pt.euronews.com


