Um Fio Culinário Entre Continentes
Existe um elo invisível que une a Itália e o Brasil, tecido com os ingredientes mais básicos e um sabor que transcende fronteiras: a pizza. Nascida em Nápoles como um alimento para os menos favorecidos, a pizza evoluiu de um gesto cotidiano para um símbolo nacional italiano e, ao cruzar o Atlântico, transformou-se em um hábito brasileiro, um fenômeno urbano e uma paixão de massa. Seja na Itália, onde é cultuada como patrimônio cultural, ou no Brasil, onde se tornou parte essencial da rotina, a pizza representa uma linguagem universal e um ritual de partilha.
Brasil: Pizza na Veia, do App à Mesa
No Brasil, a pizza deixou de ser uma ocasião especial para se firmar como rotina. Ela marca o meio da semana, o fim do expediente, o domingo à noite e a escolha impulsiva em aplicativos de delivery. Os números impressionam: mais de 2,5 milhões de pizzas são produzidas diariamente no país, totalizando cerca de 1.752 por minuto. Em 2025, a pizza figurou como a terceira categoria mais pedida no iFood, com 92 milhões de solicitações. Esse cenário reflete um país jovem, urbano e digital, onde o delivery é uma extensão natural da cozinha. Redes como a Pizza Prime, a maior do Brasil com mais de 80 unidades, ilustram essa escala, entregando mais de 200 mil pizzas por mês. No Brasil, a pizza é sinônimo de velocidade, logística e eficiência, adaptando-se a um consumo rápido, compartilhado e altamente personalizável.
Itália: Tradição, Artesanato e o Culto ao Pizzaiolo
Na Itália, o tempo dedicado à pizza corre em outro ritmo. A história remonta aos bairros populares de Nápoles, onde a pizza era um sustento acessível. Hoje, o país produz aproximadamente 8 milhões de pizzas por dia, quase 3 bilhões anualmente, gerando um impacto econômico direto de cerca de 15 bilhões de euros. Contudo, a essência da pizza italiana permanece intrinsecamente ligada ao artesanato, ao forno a lenha e à habilidade do pizzaiolo. O reconhecimento da arte do pizzaiolo napolitano como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 2017, solidificou a data de 17 de janeiro, dia de Santo Antônio Abade, padroeiro dos pizzaiolos, como o World Pizza Day global.
Roma: A Pizza Como Tela de Expressão Contemporânea
Roma se destaca como um vibrante centro de inovação na pizza italiana. Pizzerias na capital reinterpretam tradições, usando a pizza como um território para identidade, pesquisa e linguagem pessoal. Em 2026, criações autorais em pizzarias romanas narram histórias através de sabores únicos. Em Viale Pinturicchio, Francesco Calò apresenta o “Canto di Bruma”, uma pizza que prioriza a profundidade de sabor com ingredientes como cervo brasado e trufa negra, sobre um impasto de longa fermentação. Em Via Antonio Pacinotti, Alessio Mattaccini, do Spiazzo, propõe o “Confine”, um manifesto contemporâneo com um impasto mais crocante e uma combinação de abóbora assada com missô, pancetta e radicchio. Já no Baccio e i Gradini, Giovanni Lombardi resgata a memória com uma versão emocional da Margherita, utilizando tomate datterino assado e stracciatella, evocando o sabor dos antigos fornos de padeiro.
Um Mundo de Pizzas: Da Fusão Brasileira à Proteção Italiana
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, o Brasil abraça a pizza em sua forma mais fusion e criativa, aceitando ingredientes doces, exóticos e até mesmo inovações tecnológicas. A pizza brasileira convive com a ideia de pizzas luxuosas e projetos experimentais, demonstrando uma notável capacidade de aceitação e adaptação. A diferença fundamental reside na abordagem: a Itália protege sua pizza como rito e patrimônio, enquanto o Brasil a expande com liberdade e criatividade cotidiana. Essa complementaridade não gera disputa, mas sim uma celebração da universalidade da pizza. Seja em Nápoles, Roma ou São Paulo, entre o calor do forno a lenha e a praticidade do aplicativo, a pizza continua sendo o essencial gesto de dividir, compartilhar e pertencer.
Fonte: jornalitalia.com


