O Legado de Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República
Dez anos após assumir a Presidência da República em Belém, Marcelo Rebelo de Sousa encerra um mandato singular, caracterizado por uma proximidade ímpar com os cidadãos e uma comunicação incessante. Este estilo, que lhe rendeu níveis históricos de popularidade no primeiro mandato, enfrentou sinais de desgaste no segundo, culminando numa saída que deixa um rastro de debates e reflexões sobre o seu impacto na política portuguesa.
Do Afeto à Crítica: A Evolução de um Mandato
A recandidatura de Marcelo em 2021 foi justificada pelo saldo positivo do primeiro mandato, garantindo a sua reeleição à primeira volta com cerca de 60% dos votos. A expectativa era de continuidade de um Presidente agregador, num cenário ainda de estabilidade política herdada da “geringonça”. O politólogo João Pacheco recorda a campanha disruptiva de Marcelo em 2016, sem cartazes e apostando na notoriedade e na proximidade, um contraste com o seu antecessor, Cavaco Silva. A relação com o eleitorado foi construída através de anos de presença televisiva, gerando o fenómeno das “marselfies”.
No entanto, o segundo mandato foi marcado por um claro desgaste. Sucessivas dissoluções da Assembleia da República, crises políticas, polémicas comunicacionais e o “caso das gémeas” – envolvendo um medicamento de milhões de euros e a alegada intervenção do seu filho, Nuno Rebelo de Sousa – lançaram sombras sobre a sua presidência. Pacheco critica a gestão comunicacional de Marcelo no caso, considerando que houve “muito zigue-zague” e falha na gestão das consequências e do escrutínio necessário.
Relações Institucionais: De Costa a Montenegro
A relação com os primeiros-ministros foi um fator determinante na diferenciação dos mandatos. Com António Costa, a coabitação foi descrita como “simbiótica”, com troca regular de informação e confiança mútua, permitindo atravessar crises como os incêndios de 2017 e a pandemia. Marcelo chegou a descrever esse período com nostalgia: “Éramos felizes e não sabíamos”.
Já com Luís Montenegro, a relação mostrou-se mais distante e estritamente institucional. Essa diferença ficou patente quando o Presidente admitiu publicamente desconhecer decisões governamentais, algo impensável no período anterior. No plano da comunicação, o segundo mandato acentuou a necessidade de Marcelo comentar quase tudo, expondo um presidente mais crítico e interventivo, com declarações sobre temas sensíveis como os abusos sexuais na Igreja Católica ou o passado colonial português, vistas por alguns como precipitadas e divisivas.
O Presidente que Mais Dissolveu: Um Guardião da Estabilidade ou Instigador de Crises?
Marcelo Rebelo de Sousa sai de Belém como o presidente que mais interrompeu ciclos políticos, com dissoluções nos parlamentos nacionais e regionais. Em 2021, a votação contra o Orçamento do Estado pelo BE e PCP levou à primeira dissolução da Assembleia da República, terminando com a “geringonça”. Em 2024, a demissão de António Costa após uma investigação judicial motivou nova dissolução, antecipando eleições que deram lugar ao governo minoritário de Luís Montenegro. Em 2025, uma nova dissolução ocorreu após a rejeição de uma moção de confiança ao governo da AD, em decorrência de notícias sobre a empresa familiar de Montenegro.
João Pacheco afasta a ideia de que a responsabilidade seja exclusivamente presidencial, argumentando que as crises políticas já estão abertas no Parlamento quando chegam a Belém. Para ele, devolver a palavra aos eleitores foi uma forma de reforçar a legitimidade democrática, mesmo à custa da perceção de instabilidade. O maior risco para o legado de Marcelo, alerta o politólogo, é a memória seletiva, temendo que o “caso das gémeas” ofusque o seu papel decisivo na gestão da pandemia, um período em que a atuação conjunta do Governo e Presidência “salvou vidas”.
Um Legado Complexo para o Futuro
Apesar de deixar Belém, é previsível que Marcelo Rebelo de Sousa continue a intervir no espaço público, mantendo o seu registo de presença, opinião e ausência de inibições. Este traço consolidará a imagem de um presidente que, embora tenha unido o país em muitos momentos, pagou o preço de uma exposição constante. Um legado complexo que só o distanciamento do tempo permitirá julgar em definitivo.
Fonte: pt.euronews.com


