A declaração de Donald Trump de que os Estados Unidos passariam a “governar” a Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro evoca uma tendência preocupante na política externa americana: o uso excessivo da coerção. Segundo Monica Duffy Toft, professora de Política Internacional e diretora do Centro de Estudos Estratégicos da Fletcher School, Tufts University, essa abordagem, embora possa garantir obediência a curto prazo, é contraproducente para a construção de um poder duradouro, que depende de legitimidade e capacidade.
Força não gera autoridade
A especialista argumenta que, embora a ditadura de Maduro tenha levado ao colapso da Venezuela, destituir um líder não equivale a promover uma ordem política legítima. A intenção declarada dos EUA de governar o país cria uma armadilha onde a força externa é erroneamente vista como substituta da legitimidade interna. A pesquisa de Toft, que examina intervenções militares e guerras civis, demonstra que a força pode derrubar governantes, mas não pode gerar autoridade política. O uso excessivo da “diplomacia cinética” em detrimento de outras ferramentas de política externa, como diplomacia e soft power, tende a aprofundar a instabilidade.
O desequilíbrio institucional e as lições do passado
Desde o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos têm aumentado a frequência de intervenções militares, ao mesmo tempo em que investem menos em diplomacia. Esse padrão se intensificou com missões que antes visavam a estabilização a curto prazo e agora se expandem para a governança prolongada. O desequilíbrio institucional é gritante: para cada dólar investido no Departamento de Estado para prevenir conflitos, 28 dólares são alocados ao Departamento de Defesa, garantindo que a força seja o primeiro recurso. As experiências no Afeganistão, Iraque e Líbia servem como advertências. No Afeganistão, a tentativa de criar autoridade baseada em força externa desmoronou após a retirada americana. No Iraque, um plano que ignorou fatores culturais e sociais levou a uma resistência contra os EUA. Na Líbia, a remoção de Gaddafi resultou em guerra civil e fragmentação. Em todos os casos, a arrogância americana em acreditar que sua gestão poderia substituir a legitimidade política foi um fator de fracasso.
Custos estratégicos e a erosão da credibilidade
Assumir a governança da Venezuela acarretaria custos estratégicos significativos. Um ataque militar seguido de administração estrangeira mina os princípios de soberania e não intervenção, complicando a diplomacia com aliados. Os EUA, historicamente mais fortes quando ancorados na colaboração, adotariam um modelo de poder fechado e coercitivo. Essa postura é observada atentamente por rivais como China e Rússia, que podem usar o comportamento americano para justificar suas próprias ações expansionistas. Ao normalizar a governança unilateral, os EUA enfraquecem sua capacidade de contestar argumentos de que a força, e não a legitimidade, determina a autoridade política. A erosão da credibilidade reduz o espaço para cooperação e o avanço dos interesses americanos. A força é rápida, mas a legitimidade, embora lenta, é a única moeda que compra paz e estabilidade duradouras, um interesse permanente dos EUA.


