Uma Tradição Única em Meio à Natureza Islandesa
Enquanto o Brasil transita pela modorra de agosto e a expectativa pela primavera, a Islândia se prepara para uma de suas tradições mais singulares e emocionantes: a temporada de resgate de filhotes de papagaios-do-mar, conhecidos localmente como ‘puffins’ (Fratercula arctica). Este evento anual, que ocorre entre agosto e setembro, mobiliza a comunidade das Westman Islands, um arquipélago no sul do país que abriga a maior colônia dessas aves marinhas.
O Desafio da Navegação Aérea e a Ajuda Humana
Os filhotes de papagaio-do-mar, após deixarem suas tocas nos penhascos, têm como instinto natural se orientar pela luz da Lua para encontrar o caminho rumo ao oceano, onde passarão anos vivendo. No entanto, as luzes artificiais das cidades modernas frequentemente os desorientam, levando-os a se perderem em terra. Diante dessa vulnerabilidade, centenas de moradores e voluntários saem às ruas durante a noite, munidos de lanternas, em busca dessas aves desorientadas. Escolas, hospitais e postos de gasolina podem se tornar cenários inesperados para o encontro com os pequenos e assustados puffins.
Um Resgate Cuidadoso e Essencial para a Conservação
O resgate exige cuidados especiais. Os voluntários utilizam luvas para evitar a transmissão de doenças, como a gripe aviária, e para não transferir óleos naturais de suas mãos para as penas das aves, o que poderia prejudicar seu voo. Os animais recolhidos são transportados em caixas, e aqueles encontrados perto do porto são resgatados com redes por equipes em barcos para evitar o contato com óleo na água. A cada noite, dezenas de filhotes são salvos, e os dados coletados são registrados em um site oficial para auxiliar pesquisas científicas sobre a espécie. No dia seguinte, os filhotes resgatados são soltos em locais seguros, muitas vezes com a ajuda dos próprios voluntários para impulsionar seu primeiro voo rumo ao mar.
A Ameaça Climática e o Futuro dos Puffins
A importância dessa tradição transcende o aspecto cultural. Os papagaios-do-mar enfrentam um declínio alarmante em suas populações, com uma redução de 70% nos últimos 30 anos na Islândia, segundo Erpur Snær Hansen, diretor de pesquisa ecológica do Centro de Natureza do Sul da Islândia. O principal vilão é o aquecimento das águas oceânicas, que afeta a disponibilidade de peixes, sua fonte primária de alimento. Fatores como a baixa taxa reprodutiva – um ovo por casal a cada temporada, e nem sempre anualmente – e a caça legalizada na Islândia agravam a situação. Assim, a mobilização anual para salvar os puffins perdidos não é apenas uma prática comunitária, mas um ato vital para a sobrevivência dessa espécie icônica e para a preservação de um dos símbolos naturais da Islândia.


